~ tens morada em mim ~

 Meu amor, 

Amei-te desde o primeiro instante que soube da tua existência. Desculpa, deixa-me corrigir-me: amo-te desde o primeiro instante que soube da tua existência. Lembro-me tão perfeitamente: eu e o teu pai a chorar na casa de banho enquanto olhávamos para o teste positivo. Foste tudo o que sempre desejei e sonhei. A memória da tua existência ainda é o que mantém unida. Porque dia 11 de Fevereiro de 2026 a minha vida mudou - não sabia ainda o quanto. Descobri que não há amor como o que se sente por um filho, mas também não há dor maior do que perder o que foi o sonho mais bonito da nossa vida.

Sonhei contigo, Margarida, sem saber sequer quem seria o teu pai. Sonhava-te de cabelos loiros a correr por relvados enquanto eu fazia pão da cozinha, sonhei-te a brincar com tartarugas perto de um choupo centenário. Sonhei-te tantas vezes, mesmo sem admitir a mim mesma. Depois, conheci o teu pai e tu já não eras só um sonho: eras um destino. Um sítio lindo e aconchegante para colocar o nosso amor. As tuas bochechas seriam um depósito de beijinhos e o nosso colo o teu sítio favorito. Sonhamos-te. Sonhamos que viajávamos contigo por este mundo fora. Que te ia ler os livros infantis todos que gostasse e que ias brincar com as guitarras do teu pai. Sonhei que irias fazer pizza connosco ao domingo à noite e que ias ajudar-me a regar as minhas plantas. 

Quanto mais crescias no meu útero mais eu sonhava: sonhava que ias gostar de panquecas de banana e que ias amar sopa como nós. Imaginei-te, tantas vezes, na cadeira de refeição da cozinha a veres-me abraçada com o teu pai e teres a certeza absoluta que a nossa casa era cheia de amor por todos - especialmente por ti. Coloquei tantas vezes as mãos na minha barriga e sussurei-te o quanto te amava, o quanto eras desejada, o quanto te esperamos e estávamos prontos para ti. 

Ter sido a tua morada, foi a época mais feliz da minha vida, aos bocadinhos comecei a sentir-me a tua mãe: fiz de tudo para estares segura e confortável. Nunca vais saber, minha pequenina, mas ter-te dentro de mim foi o maior sonho que realizei. Fizeste-me sentir a pessoa mais bonita e capaz deste mundo. E, ainda que vivas só na minha (nossa) memória, és tão amada. Margarida, minha bebé, a memória da tua curta existência tem o meu amor todo - e a minha dor também. 

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