~ carry you ~

Há um mês atrás era sexta-feira, tínhamos ido para o hospital de manhã para a consulta do segundo trimestre. Eu estava de jardineiras pretas, e oh!- como eu amava usar jardineiras com a minha barriguinha de 21 semanas. Antes do pequeno almoço tirei uma fotografia da minha barriga saliente e do Balú a dormir os meus pés (aquela viria a ser a última fotografia sem a devastadora notícia). Quando entramos naquele consultório, entramos com a confiança ingénua de dois pais de primeira viagem. Como sempre, entreguei um dos meus melhores e maiores sorrisos à equipa médica. Depois do exame tínhamos combinado almoçar num dos nossos restaurantes favoritos. O ambiente no consultório, quando chegamos, era acolhedor. Reparei que ao fundo estava a dar música - Novo Amor, uma das minhas bandas favoritas - sorri internamente, ainda melhor fazer isto com uma boa banda sonora. Senti-me tão confiante, mal sabia eu que passado uns minutos estava a dar a queda da minha vida. 

No consultório, estava a médica e creio que uma estagiária, o Guilherme estava sentado do meu lado esquerdo. Começamos o exame: creme na barriga e vamos a isso. Sorrisos e de repente um silêncio vazio. Um vazio longo. Um olhar preocupado. O ecógrafo mexia-se na minha barriga: para a frente, para o lado, para dentro. Novamente um vazio. A médica explica-nos que algo não está bem. Eu e o Guilherme damos as mãos. Fala-nos em problemas cerebrais que podem resultar em complicações graves no desenvolvimento. Respiro fundo. Não quero chorar. Aperto a mão do Guilherme. A médica, olha-me nos olhos tão profudamente que automaticamente mordo o lábio para ela não perceber como eu estava em pânico, mas sei que o meu olhar era o olhar mais assustado do mundo. Diz-me "Mãe, não vos consigo tranquilizar mas vamos continuar o exame". O ecógrafo encontra a carinha da nossa bebé. A médica sorri. Eu suspiro de alívio. "Tem um nariz pequenino como a Mãe". Ainda há esperança, penso eu. Olho rapidamente para o Guilherme - não posso olhar muito porque começo a chorar se o fizer - e tento sorrir-lhe. Avançamos para examinar o coração. Novamente o vazio. O ecógrafo está tão pressionado na minha barriga que parece que me vai esmagar. Sinto um nó tão grande na garganta que, na verdade, sinto que alguém me está a esmagar. Sinto-me esmagada, minúscula, destruída. O vazio continua, desta vez já sabemos o que este silêncio significa: vêm aí mais más notícias. Tento preparar-me para o tsunami que vem aí: mas como é que alguém se prepara para um tsunami quando se está na linha da frente da praia? As palavras da médica, atingem-me como facas. Aí tive o primeiro impacto do pesadelo que tinha começado. A médica explica o que se passa e eu controlo-me para não chorar, mas não consigo: as lágrimas caiem-me silenciosamente. Deslizam pela minha cara lentamente como os carros fúnebres deslizam pela estrada. Aperto a mão do Guilherme, quero sentir que algo me mantém à deriva no mar que me engoliu, quero sentir que ainda estou ali. A médica pede permissão para sair e chama outra colega para examinar o coração da nossa bebé. Ela entra. A minha mão esquerda aperta a mão do Guilherme, a minha mão direita é apertada pela mão da médica. O ecógrafo esgana-me, sufoca-me,  aperta-me a barriga e eu já não aguento o que está a acontecer: começo a contar o número de quadrados que há no tecto. Sinto tanta dor que se a abraçar, afundo-me e sei que as lágrimas que correm devagar na minha cara irão assumir outro ritmo. Respiro fundo. As más notícias confirmam-se: vamos ser encaminhados para um ecocardiograma fetal. Entretanto voltamos a fazer o exame, o ecógrafo já não é só uma máquina é uma serpente gigante que se movimenta por cima da minha barriga, sinto-me uma prisioneira deitada naquela maca. Poucos minutos depois de voltarmos a fazer o exame, outro vazio: outro tsunami comigo sem vida dentro de água. Lembro-me da médica estar a contar "L2, L3" e a certa parte da coluna não havia continuação. Aquela contagem, repetidamente, foi o meu último pedaço de esperança a cair. Saímos do consultório, com indicação para irmos já fazer o ecocardiograma fetal. 

Assim que as portas se fecharam atrás de nós: eu e o Guilherme abraçamo-nos no meio do corredor. Choramos. Apercebemo-nos aí que o nosso sonho estava prestes a acabar. Demos mais uns passos: saímos da ala de ginecologia e obstetrícia e encostei-me à parede do corredor. Voltamos a abraçar-nos. Aquele corredor tem uma luz tão bonita que é quase celestial. Senti que nesse abraço, enquanto chorávamos, começamos a despedir-nos da nossa bebé. Ficamos à espera na área de cardiologia para sermos chamados. Assim que chego à sala de espera, vou à casa de banho. Mal entro, vejo uma Mãe e uma criança, não seguro as lágrimas que correm pela minha cara incessantemente, algum dia serei eu a estar numa casa de banho com a minha criança? Tento recompor-me quando elas saiem, esforço-me por parecer normal e volto à sala de espera. Dou a mão ao Guilherme. Quando somos chamados, vamos para uma sala, eu deito-me na maca e a médica diz "vou tentar que não doa, Mãe, até porque a sua barriga já deve estar dorida das horas que esteve no exame". Só aí me apercebo das dores que tinha na barriga. Enquanto a médica faz o exame, volto a contar os quadrados na sala. O exame acaba, ela faz-nos um desenho do que se passa no coração da nossa bebé. Olho para o Guilherme para ver se ele está a perceber o que nos estão a dizer. Faço um esforço desmedido para prestar atenção, há palavras que não fixo, pormenores que não consigo compreender. Mas percebo o essencial: vou ter que me despedir da minha bebé. Faço as perguntas que tenho coragem para fazer, uma parte de mim espera por um milagre. O milagre não chega, em vez disso, a médica abraça-me quando nos despedimos e diz para eu ter força. Mas como se tem força para se despedir de um filho que vive no nosso útero? 

Voltamos para o primeiro consultório, aquilo que eu tinha considerado um ambiente acolhedor é agora um ambiente tão gélido como a morte. Já não me deitei na maca. Arranjam duas cadeiras para nos sentarmos. Naquele momento, já não tinha lágrimas na minha cara, só queria perceber o que se passava, o que podíamos fazer a seguir, e o que é que eu podia fazer. A médica explica-nos o inevitável: a nossa bebé não tem hipóteses de sobreviver sem dor. O Guilherme coloca a cabeça sobre os joelhos. Eu faço a pergunta que me aflige a resposta: "Podíamos ter sabido disto mais cedo?". Ela responde que não. A partir daí, a médica fala em procedimentos, em funeral, em hospitalização, em autópsia. Decidimos aquilo que conseguimos. Assino os papéis mais difíceis de assinar na minha vida: o requerimento para uma interrupção médica da gravidez. Só pedem a minha assinatura para a interrupção de gravidez da nossa bebé e isso é um peso muito grande. Assinei esses papéis e senti-me sem vida. O vazio que sentimos durante a morfológica apoderou-se de mim. Saímos do São João e coloquei a mão na minha barriga: a minha barriga de grávida de 21 semanas. Coloquei a mão na minha barriga, mas queria dar a mão à minha bebé e sussurar-lhe: "a mamã está aqui para te proteger", porque nesta decisão foi só nisso que pensei.

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