~ a nossa travessia no deserto ~
Existe uma coisa que acontece quando estamos grávidas, os meses passam a semanas, e deixar de pensar dessa forma é difícil. A Margarida fazia semanas de existência todas as quintas-feiras e em todas elas eu via o tamanho do fruto/legume e comparava com o tamanho da minha barriga. A quinta-feira era o meu dia da semana favorito, porque era mais uma semana com a minha bebé a crescer. Ironicamente foi a uma quinta feira que foi marcada o início da interrupção da gravidez. Hoje faz 18 semanas desse dia, o dia em que começou o ritual final da despedida da nossa bebé. Hoje, seria também a data prevista do parto da Margarida.
Na semana anterior, comemos bolas de berlim, chocolates com formas de margaridas e ouvimos mil músicas enquanto esperávamos os teus pontapés na minha barriga. Durante toda a semana anterior a dia 11 de Junho, fizemos os possíveis para nos despedirmos da nossa bebé com o sentimento de gratidão. O nosso ritual todas as noites era colocar na coluna várias músicas, bem junta à minha barriga para tu ouvires bem enquanto eu estava deitada de barriga para cima e o Guilherme colocava a mão na minha barriga, e eu também, para sentirmos os movimentos que a Margarida fazia na minha barriga. Com as músicas em que deste um pontapé criamos a tua playlist. Esse era o nosso pedacinho de felicidade, estávamo-nos a despedir de algo tão nosso, tão bom e que ainda estava ali, e nós entre lágrimas e olhares de desespero tentávamos sorrir: porque a nossa filha estava ali. A nossa filha ouvia-nos, reagiu às músicas e às comidas e enquanto o nosso mundo perdia o sentido de rotação: ela ainda estava ali. A Margarida foi amada até ao último segundo da sua vida. Lembro-me de acordar a ouvir as músicas e chorar, adormecer a ouvir as músicas e chorar. O desespero de perder o nosso bebé é inexplicável, e eu chorei (e choro) tantas vezes, sem saber como irei recuperar. Enquanto a Margarida estava na minha barriga lembro-me de pensar que não queria estar tão triste porque não queria que ela sentisse a minha tristeza e esforcei-me mundos e fundos para todos os dias haver algo feliz. Olhava para o Guilherme e sabia que ali estava - "o meu algo feliz". Perder a nossa bebé só me fez estar mais apaixonada por ele, porque durante todos os dias foi o nosso amor que me manteve à superfície, por mais cliché que possa parecer: descobri que até o inferno é melhor se estiver com ele.
Naquela quinta-feira, há dezoito semanas atrás, fomos para o hospital para dar início à interrupção da gravidez, levamos uma mala improvisada (como é que alguém leva uma mala da maternidade vazia? e sem curso de preparação para o parto?) e deixamos em casa uma vida à qual nunca mais íamos regressar - uma vida de ingenuidade e felicidade plena. Quando chegamos ao hospital, pediram para esperarmos mesmo em frente à ala de obstetrícia - ouvimos o grito dos recém nascidos e vimos as mães a sairem dos seus quartos para os amamentar, pesar e vestir. Vi, continuamente uma realidade que sabia que não ia ser a minha. Nunca iria vestir a minha filha, amamentá-la, dar-lhe banho. Se ainda houvesse um bocadinho meu que não estivesse destruído, aquelas imagens teriam sido a gota final. Pedimos que nos mudassem de lugar, fomos para uma sala esperar. Havia uma infeção num dos quartos, ainda não tinhamos o quarto livre. Esperamos. Esperamos uma, duas, três horas. Já nem me lembro quanto tempo foi. O tempo, quando estamos prestes a vivenciar um pesadelo perde o seu valor. Nada me importava. Contei novamente os quadrados que estavam no tecto. Eu e o Guilherme vimos fotografias minhas grávida, demos a mão, tentamos descansar.
Perto das 15h, entramos no nosso quarto. O quarto era azul escuro, com muita luz. Cheirava a limpo e a cama era extremamente confortável. Mudei de roupa e comecei as primeiras medicações, algumas vaginais, outras orais. A dor da colocação dos comprimidos vaginais, que depois me viriam a dar mais quatro vezes (eram os comprimidos que me iam ajudar na dilatação), era indescritível. Sentia-me tão vazia, cada vez que os comprimidos me eram colocados, era mais uma constatação da realidade - a minha bebé não vai sobreviver. Os primeiros comprimidos foram numa sala diferente, voltamos para o quarto e recebo uma mão cheia de comprimidos para as dores que viria a ter. A enfermeira diz-me, com um sorriso angelical, que em casos como os nossos não deixam as Mães ter dores porque já basta a dor emocional. Senti-me abraçada como Mãe e como pessoa que sofre. A partir daí perdi um bocado a noção do tempo. A mesma enfermeira diz-nos que está lá para nós e que é extremamente triste o que estamos a passar e que podemos chorar com ela as vezes que quisermos. Eu não tinha forças para chorar. Colocamos a playlist da Margarida.
Começaram as primeiras dores. Sinto muita vontade de ir à casa de banho. Muitas dores. Dizem para eu ir à sanita mas para colocar uma coisa metálica por baixo de mim, caso a bebé saia enquanto vou à casa de banho. Senti-me horrorizada. Não queria que a Margarida nascesse assim, para uma taça de metal. Fui à casa de banho, sempre agarrada ao Guilherme, chorei de pânico. Não acreditava que o pesadelo ainda era mais terrorífico. Fui à casa de banho, sempre em pânico, a minha bebé não tinha saído de mim - suspirei de alívio. Não sei qual é a sensação da morte, mas desconfio que o toque daquela taça metálica seja algo similar. Sempre que vamos à casa de banho, quando estamos neste processo, temos que chamar as enfermeiras para lhes mostrar o que fizemos e se nenhuma parte do nosso bebé saiu. Quando me explicaram isso, estremeci, imaginava a minha filha tão linda que não queria que ela saísse "aos pedaços", aos pedaços já estava eu partida e já me chegava.
As horas seguintes perderam a sua dimensão. Lá fora estávamos a viver uma onda de calor, mas no quarto, eu senti-a muito frio. Mais tarde soube que tive febre muito alta. A medicação começou a fazer efeito e relaxo por um momento, ouvi-mos as músicas e pedi ao Guilherme que me fizesse tranças no cabelo - e ele fez. A certa altura lembro-me de uma passagem de uma música do José Mário Branco "que caminho tão longo, que viagem tão comprida, que deserto tão grande", ali lembrei-me efectivamente que o nosso caminho era tão longo, a nossa viagem tão comprida e naquele quarto eu senti-a mesmo um deserto tão grande. Pusemos essa música enquanto a luz invadia o nosso quarto. Essa música, será para mim, a música de despedida da minha bebé.
Depois deste momento de calmaria, comecei a ter aquilo que eu acho serem as contrações. Comecei a respirar como me tinham dito, mas as dores não eram espaçadas, pelo menos não o suficiente para eu conseguir respirar entre elas. Levanto-me da cama, apoio os meus braços à volta do Guilherme e tento dançar ao som da música para me distrair. Respiro. Vou buscar o pente de madeira nem a dor de o pressionar nas minhas mãos ajuda. Agarro-me às grades da cama enquanto respiro. Tinha tantas dores, mas não sabia se eram dores físicas ou emocionais. Doía-me a parte mais interna de mim como se alguém me espetasse uma faca por dentro, ou um machado, tais eram as dores. Lembro-me muito bem de estar agarrada às grades da cama e pensar, como era injusta a vida, como era injusto passar por tantas dores e não ter a felicidade de ser mãe de uma bebé viva. Não chorei, mas podia jurar que estava a derramar muitas lágrimas - mas elas já tinham secado antes. Neste momento, uma enfermeira entra no quarto e diz "ai que ela já está com muitas dores, não pode ser". Acalmou-me, abraçou-me e foi buscar medicação. Tomei a primeira dose de morfina e senti-me a ser abraçada pela morte, por um anjo, por algo douradinho que fez com que as dores parassem. Senti-me aninhada em todo o carinho que me rodeava. O Guilherme estava sentado ao meu lado, senti-me incrivelmente protegida e consegui descansar deste pesadelo.
As horas passaram, de três em três horas deram-me os tais comprimidos, e reforçaram a medicação para as dores. Por volta das 23h fomos para o bloco de partos, mas eu ainda não tinha dilatação suficiente. Colocaram-me numa cadeira de rodas. À ida para o elevador, duas enfermeiras sabem quem eu sou e deram-me um beijinho. Voltei a sentir-me acarinhada. Chegamos ao bloco de partos. Era cor de rosa e à minha esquerda tinha uma parede de vidro. Durante este tempo todo sei que andei à procura de luz. O Guilherme teve que sair duas vezes - para ir buscar as nossas coisas ao quarto azul e quando me colocam a epidural. Quando me colocaram a epidural, senti-me confiante, tinha muito medo mas senti-me confiante. Senti-me empoderada por saber que ia ter algo normal na minha experiência. Ao menos, a minha bebé ia "nascer" como era suposto. A epidural faz-me vomitar, volto a ter mais dores, a certa altura já nem sei que medicação me dão, simplesmente aceito. A dilatação continua a não ser suficiente. Estou na quarta dose de comprido, só posso ir até à quinta se não vou para cesariana. Sinto-me sem forças. Já não quero ouvir música. Estou exausta.
A certa altura a enfermeira entra no quarto para me observar, nesta altura da madrugada eu já não conseguia dormir, diz-me que está na hora, que a Margarida já está pronta. Respiro fundo. Pede-me para eu fazer força. Mas por causa da epidural eu não tenho muita noção da força que faço. Fiz toda a força que tinha em mim. Ela diz que precisa de mais. E assim foi. A certa altura sinto a minha bebé a sair de mim. Não ouvimos nenhum choro, como nos filmes. A enfermeira prepara a minha bebé, limpa-a, envolve-a na manta que levamos, coloca-lhe um gorrinho azul e cor de rosa que deram no hospital. Enquanto isso, eu pergunto: "é mesmo uma menina?", ela responde-me que sim. Enquanto a enfermeira prepara a Margarida, fá-lo com um sorriso muito dócil nos braços e com o maior respeito do mundo. Eu preparo-me para aquilo que nenhuma mãe se deve preparar. A enfermeira já sabia que nós a queríamos ver e pegar. Pergunta-me se eu estou preparada. Minto-lhe e digo que sim. Achei que ia morrer. Ela passa-me a minha filha para os meus braços.
A Margarida está nos meus braços, envolva numa mantinha branca. O meu medo desaparece. Sinto-me invadida por o maior amor do mundo. Não consigo pensar que a minha filha está sem vida, só consigo pensar o quanto a amo, o quanto quero que ela saiba. Encho-me de coragem e falo com ela. Digo-lhe que é o amor da minha vida, que é a mais bonita do mundo e que eu a amo. Quero ficar com ela para sempre nos meus braços. Olho para ela, tão pequenina, com as mãos tão pequeninas, com os olhos fechados, as suas bochechinhas e nariz perfeitinhos e só quero que ela viva para sempre. Quero protegê-la e não quero que mais ninguém pegue nela. Não choro enquanto a vejo, porque no meio deste pesadelo, ter a minha filha nos braços é um sonho concretizado mas com um final que eu nunca escolhi, nem achei que fosse possível. Embalo-a com os meus braços, como sempre me imaginei fazer e deixo-me estar com ela nos meus braços. Como é que um momento tão triste pode ao mesmo tempo ser dos mais felizes da minha vida?
Guardo coragem e passo a Margarida ao Guilherme. Ver a nossa bebé tão pequenina nos braços do Pai dela, fez-me tanto sentido. Imaginei tantas vezes essa imagem. A nossa família. Eram por volta das 5h30 quando a Margarida veio para o nosso colo, juntamente com os primeiros raios da manhã. Enquanto o Guilherme está sentado com ela nos seus braços, os raios de sol tímidos estão a iluminá-los. Eu estou deitada na cama, exausta, e fico só a olhar para eles. Amo-os profundamente. Naquela madrugada só senti amor, uma bolha pacífica, dolorosa, mas cheia de amor. Começa a ficar difícil deixar-mos a Margarida ir embora, sabendo que nunca mais a vamos ver, então ganhamos coragem e chamamos a enfermeira. O Guilherme dá um beijinho à nossa filha, eu curvo-me na cama e dou outro beijinho na sua testa pequenina (a minha pequenina), a enfermeira recebe-a nos braços com um carinho tal que eu senti que ela estava bem entregue.
A nossa bebé vai-se embora e para junto de nós, mais tarde, voltam as suas impressões digitais e o mesmo gorrinho às riscas azuis e brancas. A partir daí só sobrevivemos. Tentamos voltar à realidade que nos era profundamente dura. Fui tomar banho com a ajuda do Guilherme e das enfermeiras. E começa o pós parto: medicação para secar o leite, fraldas, sangue, dores. E o vazio que se instala, que se tatua na minha/nossa vida para sempre.
Hoje devia estar a vivenciar o parto da minha bebé e não a escrever sobre o parto dela de colo vazio. A minha primeira filha chama-se Margarida, tinha um nariz muito pequenino e umas bochechinhas em que eu iria depositar muitos beiinhos. Adorou bolas de berlim, pizza e tinha bom gosto musical. Não gostava de pimenta doce fumada, nem do cheiro do lixo, nem do perfume antigo do Pai. A minha primeira filha foi e é profundamente amada pela Mãe e pelo Pai.
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